Neste espaço pode-se escrever as experiências boas e ruins, é uma forma de passar para os outros nossas dificuldades ao trabalharmos em um país que as Leis e Decretos ficam apenas no papel. Quando criei este blog queria tão somente desabafar a frustração de ver tantos alunos aqui em Goiânia sem intérprete de libras, provocado pelo descaso do governo, mas depois percebi que poderia fazer mais, então comecei a postar textos de pessoas que nem conheço e gostei de ter lido. Achei que compartilhando esse material estaria ajundando outras pessoas em suas pesquisas, o que eu não pensei é que teria tanto acesso em tão pouco tempo, visto que meu blog foi criado em abril de 2011. Gostaria de agradecer a todos que têm acessado este blog, e espero ter ajudado e contribuido com alguma coisa. Se você tiver um texto que possa me enviar eu o postarei, assim estará me ajudando também.(regisneia@gmail.com)

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segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Escola: preconceito, dificuldades da inclusão

Imagem Google flor com cadeirante no miolo da flor e uma pessoa conversando
Olá pessoal! Estive ocupada com minha conclusão de Pós em Educação Especial e também com meu livro, que se Deus quiser conseguirei publicar, não é sobre inclusão, na verdade é ficção, quando eu conseguir publicá-lo aviso a vocês. Agora vamos ao motivo que os fizeram abrir essa página na net.
Em um estudo sobre cotidiano escolar na escola inclusiva, encontrei este texto de Gláucia Nascimento da Luz Pires no livro: Inclusão Compartilhando Saberes, onde ela disserta sobre o cotidiano escolar e suas dificuldades quando se trata de inclusão de alunos com Dificuldades Educativas Especiais e o preconceito dos professores ao terem que trabalhar com esses alunos. Segundo a autora:
A escola, como espaço inclusivo, deve ter como desafio o êxito de todos os seus alunos, sem exceção. Ao se construir o (PPP) Projeto Político Pedagógico, é preciso buscar inspirar-se nos princípios da inclusão, contemplando assim a renovação pedagógica no que diz respeito às diferenças. Na escola inclusiva a escolarização do aluno com dificuldades educativas especiais é um problema educativo como o é, também, a educação/escolarização de outros excluídos: as classes populares pouco favorecidas, a escola rural, a educação de crianças de rua, dos indígenas, dos jovens e adultos analfabetos, e também dos presidiários. Isso sem contar que além de terem certa semelhança nesse grupo há os que sofrem exclusão antes mesmo do processo educativo. Particularmente abro um parêntese aqui pra postar minha observação: que dependendo do ambiente, os que são diferentes desse grupo sentem-se excluídos por eles, pois quando estamos num ambiente direcionado a esse grupo eles acabam por nos excluir um fato que recíproco, visto que copiam a atitude dos outros ditos: "normais". Voltando ao assunto.
Gláucia continua seu texto afirmando assim como Vygotsky, PiagetWallon que a pessoa com necessidades especiais é sujeito do processo de inclusão, porque as leis do desenvolvimento são as mesmas para todas as crianças, mudando apenas, os contextos, podendo acontecer que os aspectos  sociais  da  aprendizagem favoreçam mais, ou menos, as pessoas, conforme suas contextos vivenciais e educacionais.
Quando se refere ao cotidiano e o preconceito ela diz que: o preconceito é uma atitude do cotidiano, é um comportamento e é um pensamento. Como pensamento, está fixado na experiência, sendo, portanto, ultrageneralizador. Como comportamento vivencial, o indivíduo vai assumindo esteótipos, analogias e esquemas já elaborados, que lhes são impingidos pelo meio em cresce e se educa. Para se livra desse pensamento preconceituoso é necessário adotar uma atitude crítica frente a esses esquemas. Nos indivíduos conformistas, a mudança de comportamento é mais lenta; em indivíduos críticos e dinâmicos, os processos de mudança de atitudes são mais rápidos. 
Heller considera que temos sempre uma fixação afetiva no preconceito. Esta fixação centra-se em dois pólos: fé, ou crença, e a confiança. Embora  costumem andar juntas, elas se distinguem do ponto de vista epistemológico e ético, e derivam ambas do caráter antropológico do ser humano, cujas necessidades sempre buscam satisfazer. Todos temos motivações próprias interiores e elas nos induzem a estabelecer finalidades  pra o atendimento de nossas necessidades específicas. Simultaneamente ao caráter individual do ser humano, também somos seres sociais, partilhamos de necessidades, finalidades, e posturas éticas estendidas ao domínio da alteridade: o outro, a família, o grupo, a comunidade, a classe social, o país, o continente, o planeta, o mundo. 
Para concluir a autora afirma que: o cotidiano escolar está povoado de mediações e a educação é, sem dúvida alguma, a escola principal mediadora na formação do indivíduo entre as esferas do cotidiano e do não-cotidiano, para ser professor é imprescindível assumir algumas características ou competências: ser responsável, criativa, ter paciência, gostar de crianças, terem vocação e dedicação, entre outras. Concordamos com Vygotsky quando nos diz que: a educação ocupa o primeiro plano de desenvolvimento e da socialização da criança, assim sento é fundamental que nesse processo de inclusão das pessoas com necessidades educativas especiais "acreditar" que a criança pode superar, sempre, seu estágio de desenvolvimento e de aprendizagem - haja vistas  o alcance das zonas de desenvolvimento próxima descritas por esse autor -, bastando, para isso, que sejam criadas pela escola condições curriculares adequadas, num envolvimento coeso e responsável de toda a equipe escolar no processo de inclusão. (2006, p. 116, 117, 118).
Aproveitando o texto acima iremos falar da inclusão escolar e como se dá esse processo de adequação por partes de toda a equipe envolvida isso quer dizer: família, escola e sociedade. Foi publicado em julho de 2010, na revista Ciranda da Inclusão uma matéria sobre os alunos que já estão incluídos nas escolas de ensino regular, e como têm sido essa mudança de integração social para inclusão social. 
Segundo o Ministério da Educação, o número de crianças e jovens com deficiência nas salas de aula regulares não para de crescer: em 2001, eram 81mil; em 2002, 110 mil; e em 2009, mais de 386 mil, como essa matéria foi escrita em 2010 penso eu que esse número tenha aumentado nesse decorrer do tempo. Até os anos 1970, o sistema educacional brasileiro seguia o modelo de integração. Todos os estudantes deveriam seguir o mesmo método pedagógico, avançar no mesmo ritmo e ser avaliado da mesma forma. Os alunos que não conseguiam se enquadrar nos padrões considerados "aceitáveis" eram encaminhados para escolas especiais. No modelo inclusivo, os alunos com e sem deficiência devem conviver nas mesmas escolas e salas, aprendendo com suas diferenças e ajudando-se mutuamente a desenvolver suas potencialidades. É sempre bom lembrar que a Lei Federal 7.853/89 e o Artigo 24 da Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, instituída pela Organização das Nações Unidas em 2008, e retificada pelo país como emenda constitucional: As escolas passam a ser chamadas inclusivas no momento em que decidem aprender com os alunos o que deve ser eliminado, modificado, substituído ou acrescentado no sistema escolar para que ele se torne totalmente acessível. Porém, a diretora Verônica acredita que esse processo precisa ser feito de forma qualitativa, onde todos se comprometam: pais, educadores, sociedade e governos. Para ela, a função maior dos educadores é agregar, amar e ajudar a conduzir, além de construir histórias. "A inclusão se dá a cada dia, com presença das pessoas que são diferentes".
Quando falamos na teoria tudo parece muito lindo e maravilhoso, por isso fui mais a fundo em meu estudo e em uma pesquisa feita Mestra em Educação Ida Beatriz Costa Velho Mazzillo mostra a realidade da inclusão. Assim a professora nos diz que: não basta a garantia de Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, formulada em 1996, com a nova filosofia da inclusão, pois essa não se consolidou de forma desejada. É preciso antes de qualquer ponto, que os professores se adaptem a este novo processo, entendendo que há necessidade de um novo olhar para os portadores de necessidades educativas especiais. É importante antes de tudo que sejam revistos os conceitos e preconceitos existentes, para que seja possível a elaboração de um (PPP), educativo com qualidade.
Para muitos professores, a inclusão é vista como prática positiva, tanto para o aluno portador de paralisia cerebral, quanto para os outros alunos. Esses professores nos relatam que não existe nenhuma interferência negativa desse aluno  no desenrolar de suas aulas. Veremos uma fala abaixo de uma professora que se refere à solidariedade e à aceitação da turma com esse aluno.
"Não interfere em nada, nada. Pelo contrário, ele faz parte da turma, Eles são extremamente bem aceitos e a turma brinca muito com eles e eles respondem, interagem numa boa".
A solidariedade e a aceitação são valores importantes na relação humana. É importante que a escola incentive esse sentimento solidário, pois dessa forma estará contribuindo para uma sociedade melhor, com igualdade e justiça para todos.
No entanto segundo a professora Ida Beatriz ainda há muitos professores que dizem existir problemas na inclusão destes alunos, enfatizando dois tipos de problemas: os estruturais e os causados pelas peculiaridades dos anos. Foi verificado que todos os professores nunca havia trabalhado nenhum tema referente à pessoa portadora de deficiências em sala de aula, evidenciando-se, com isso a falta de naturalidade para tratar a questão. A impressão que nos foi dada continua a professora, diante das falas relativas aos problemas estruturais é que as mesmas têm sido incorporadas mais como justificativas pra o não fazer e não se empenhar na busca da excelência do processo de inclusão escolar desses alunos, do que propriamente um problema a ser resolvido. Segue abaixo a fala de um professor que aponta a duração do tempo de aula como curta para dar um bom atendimento.
"Sinceramente não, porque a gente não tem tempo, 40 minutos na sala, mal dá para você dar aula, quanto mais para ter este atendimento individualizado".
É inegável que o planejamento de seu trabalho necessita dar conta deste aluno, dentro do limite estabelecido como tempo de aula. Algumas adaptações podem ser implementadas para agilizar processos nos quais esses alunos teriam dificuldades.
O tamanho das turmas foi outro problema apontado pelos professores. "Com as turmas grandes como a gente tem, eu acho complicado sim, eu acho complicado".
Realmente, quando a turma é numerosa, o trabalho docente fica comprometido em qualquer situação regular e, mais ainda, com alunos inclusivos. Mas esse problema não afeta somente os alunos portadores de paralisia cerebral; ele afeta todos aqueles que venham a possuir alguma dificuldade que exija atenção maior do professor. 
Algumas falas apresentadas sinalizam para existência de problemas relacionados às peculiaridades desses alunos, principalmente no que diz respeito ao trabalho programado desse. Vejamos:
"Claro, interfere. Ele, praticamente, dificulta à dinâmica, ele cessa, a gente não pode aplicar a dinâmica, tem que fazer uma derivação. A gente tem que fazer uma improvisação. Mas nunca é boa esta improvisação, porque o próprio meio, os próprios alunos, que não são portadores de deficiência, discriminam. Interfere no momento em que você tem que diminuir o número de trabalhos de grupo, porque quando você está dando aula no quadro, giz livros didáticos a acompanhante consegue passar a aula par a o aluno, mas quando o trabalho é um trabalho de criação de grupo, quer dizer não é este aluno que está criando nada. Ele simplesmente está sentado, dentro de um grupo, mas não está tendo possibilidade de criar, porque se for criar que vai criar será seu acompanhante". 
As falas apresentam conceitos preconceitos que não justificam a interferência desses alunos na turma. Primeiramente, adequar uma dinâmica à turma é sempre necessário, considerando-se a própria composição do grupo de alunos, independentemente de se ter ou não alunos portadores de necessidades educativas especiais; em segundo lugar, não expressar-se convencionalmente não significa impossibilidade de criação.
Acreditamos que, por meio de um diálogo mais efetivo de todos aqueles que fazem parte da rotina deste aluno, dentro e fora da escola, e inclusive com o próprio aluno, pois ninguém melhor do que ele para saber do que necessita, é que iremos construir uma escola inclusiva. Não se pode perder de vista que estamos inseridos em uma lógica de modelo econômico-neoliberal- que surgiu como uma forma de reestruturação do capitalismo, tornando-se cada vez mais difícil a manutenção do Estado de Bem-estar Social. Este modelo econômico vem dificultando ainda às pessoas portadoras de deficiência e às demais minorias, o acesso aos direitos de igualdades de condições. Esse modelo político-econômico pode nos levar a uma descrença ideológica ou a uma total falta de ideologia. 
Neste sentido, se não houver empenho em fazer valer os preceitos que nortearam a Declaração de Salamanca, estaremos deixando que, como vimos neste trabalho, os depoimentos contra o processo de inclusão, quer por descrenças, quer por falta de conhecimento, interfiram nas ações profissionais, impedindo um direito que no passado ou era negado ou eleito àqueles  que estivessem o mais perto possível da norma, mas principalmente, no próprio destino destes alunos que já estão incluídos em escolas de ensino, regular. Cabe-nos registrar a dicotomia entre teoria e prática, contida nas falas dos profissionais que deram seus depoimentos sobre o processo de inclusão, considerando que estas turmas já contam com a presença de alunos portadores de necessidades educativas especiais. Este desequilíbrio entre teoria e prática nos leva a crer que para a efetivação de uma mudança de consciência dos profissionais será preciso validar todo este constructo teórico por meio de uma inclusão eficaz. (2008, p. 30,31,32,33,34,35,36).
Como eu já expus anteriormente em outros artigos postados aqui, a dificuldade existe e a teoria está muito longe de se tornar uma prática consolidada e participativa por um todo. Encontram-se dificuldades em colocar em prática sim, e uma coisa que se deveria repensar: é sobre esses cursos que são feitos mensalmente para os professores do Ensino Especial: acompanhantes, intérpretes, auxiliadores em fim, profissionais especializados,  esses cursos teria que ser obrigatório para todos os docentes, porque muitas vezes vamos lá aprender o que já sabemos, mas o docente que ministra as aulas não têm nenhum ou quase nenhum conhecimento sobre inclusão, confundindo inclusive com integração, não sabem lhe dar com os alunos com dificuldades educativas especiais, em outro momento confundem as deficiências,  e de certa forma ficam com insegurança na hora de darem as aulas por não saberem como proceder diante desse aluno, sem deixar de lembrar que não fizeram nenhum planejamento em suas aulas para incluí-los. Os cursos dirigidos a esse atendimento inclusivo, novamente friso aqui teria que ser pra todos que estão nesta equipe escolar: gestores, secretárias, professores, merendeiras, e até mesmo para os pais e alunos ditos "normais". Todos mesmo! Senão fica um trabalho no meio do caminho. As leis aí pra serem cumpridas, as escolas correndo sem direção pra cumpri-las, alunos que continuam discriminando seus colegas, é preciso um trabalho conjunto: teoria no papel é bem diferente do dia-a-dia em uma rotina escolar.

Referências:


______ Declaração de Salamanca e linha de ação sobre Necessidades Educativas especiais, Brasília: CORDE, 1994.
 
OLIVEIRA, Ivanilde Apoluceno. Compartilhando Saberes. In: MARTINS, Lucia de Araujo Ramos (Org.). Inclusão. Rio de Janeiro: Vozes; 2006.

MAZZILLO, Ida Beatriz Costa Velho. Inclusão Escolar: dissonâncias entre teoria e prática. Fundamentos Teóricos e Metodológicos da Inclusão. Curitiva: IESD Brasil S. A., 2008.

CIRANDA DA INCLUSÃO, Revista, (2010).