Neste espaço pode-se escrever as experiências boas e ruins, é uma forma de passar para os outros nossas dificuldades ao trabalharmos em um país que as Leis e Decretos ficam apenas no papel. Quando criei este blog queria tão somente desabafar a frustração de ver tantos alunos aqui em Goiânia sem intérprete de libras, provocado pelo descaso do governo, mas depois percebi que poderia fazer mais, então comecei a postar textos de pessoas que nem conheço e gostei de ter lido. Achei que compartilhando esse material estaria ajundando outras pessoas em suas pesquisas, o que eu não pensei é que teria tanto acesso em tão pouco tempo, visto que meu blog foi criado em abril de 2011. Gostaria de agradecer a todos que têm acessado este blog, e espero ter ajudado e contribuido com alguma coisa. Se você tiver um texto que possa me enviar eu o postarei, assim estará me ajudando também.(regisneia@gmail.com)

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terça-feira, 5 de julho de 2011

Bilinguismo Libras/Português

Imagem Google alfabeto com desenhos da Disney
A língua de sinais utilizada pelos surdos possui itens comuns às demais línguas quanto a sua estrutura gramatical e quando referidos ao léxico, a elementos morfológicos, à sintaxe e à semântica. Apesar desses itens, é uma língua ímpar enquanto sistema de comunicação e possui características próprias para Ribeiro e Santo. (apud Quadros e Karnopp, 2004, p. 30).
Segundo os autores os alunos que possuem fluência na Língua de Sinais, ao produzirem seus textos utilizam sua língua materna, a Libras (Língua Brasileira de Sinais) para organizar seu pensamento, mas precisam registrar sua escrita em Língua Portuguesa por estarem inseridos nesse contexto oralista. Estes alunos passam então pelo processo de interlíngua. A interlíngua é um sistema linguístico que transita no sistema educacional dos alunos surdos, entre a primeira língua aprendida até a aquisição da segunda língua. Para o aluno surdo, a Língua de Sinais é de extrema importância em seu desenvolvimento educacional, pois é a única forma de compreender e apreender o mundo em que está inserido de maneira prazerosa e significativa. (Ribeiro e Santo, 2008, p. 208).
Fernandes (2004), diz que o aprendizado da Língua Portuguesa para o aluno surdo acontece como se esta fosse uma língua estrangeira, pelo fato de terem um impedimento auditivo, visto que esse se desenvolverá num ambiente artificial, com  metodologias próprias de ensino dificultando a compreensão do conhecimento transmitido na linguagem do ouvinte. Será através do bilinguismo que os surdos poderão desenvolver seu pensamento imagético com maior significação em sua aprendizagem. A educação de surdos no Brasil deve ser bilíngue, segundo o Decreto 5.626/2005 que garante o acesso à educação por meio da Língua de Sinais e o ensino da Língua Portuguesa escrita como segunda língua. Isso porque, na maioria das comunidades surdas a sua primeira língua será a Libras (IL 1), porém como esses indivíduos vivem no Brasil e a língua oficial do país é a Língua Portuguesa, os surdos em algum momento, seja na leitura  ou na escrita, terão que aprender uma segunda língua que será o português (IL2). (Ribeiro e Santo, 2008, p. 209).
São abundantes os mitos em relação ao suposto status "excepcional" do bilinguismo e seus potenciais efeitos negativos nas capacidades linguísticas e cognitivas de bilíngues. Ironicamente, esses mitos se mantêm, mesmo com o fato conhecido de que o bilinguismo e não o monolinguismo constitui a norma mundial, (cf. Ann, 2001; Baker, 2001; Grosjean, 1982; Romaine, 1996; Siguán,  2001). Na realidade, segundo estimativas atuais, existem aproximadamente de 5000 a 6000 línguas no mundo e aproximadamente 200 estados independentes. Mesmo que as línguas não estejam distribuídas igualmente entre os estados, é possível afirmar que a maioria da população mundial utiliza duas ou mais línguas no dia-a-dia. (Pust e Weinmeister).
O bilinguismo e o biculturalismo nem sempre ocorrem simultaneamente no mesmo indivíduo. Por exemplo, filhos ou netos de imigrantes que não aprendem a língua de seus pais ou avós, mas que convivem com a cultura destes em casa, clubes ou igrejas, podem ser considerados biculturais. Por outro lado, pessoas que aprendem uma língua estrangeira em cursos podem ser bilíngues e não biculturais, se não conviverem e internalizarem a cultura da comunidade que utiliza esta língua. É o caso de brasileiros que fazem cursinhos de inglês ou francês, mas não convivem com a cultura, inglesa, ou seja, aprendem a língua fora de seu contexto cultural. A criança surda, que  se desenvolve com as culturas surda e ouvintes, será inevitavelmente um indivíduo bicultural. (Goldfeld, 1997, p. 107).
No Centro Educacional de Surdos, temos uma comprovação da eficácia da língua de sinais. As crianças que estudam nesta escola pediram a presença de uma fonoaudióloga, pois consideram importante aprender a falar em português também. Este fato desmistifica a crença de que a aquisição da língua de sinais leva a criança surda a ficar preguiçosa e a não querer falar, oralizar. Ao contrário, tendo a consciência desperta, a criança pode analisar as situações do mundo que a cerca e chegar a conclusões importantes, como a necessidade de aprender a língua de seu país. Este aprendizado, por partir do desejo da criança, não será impositivo e penoso como ocorre em muitos casos. (Goldfeld, 1997, p. 109).
Portanto, compreender a situação dos surdos no Brasil exige, no mínimo, outros referenciais teóricos que não se situam apenas no campo da aquisição de uma segunda língua. Os surdos frequentemente afirmam que a Língua Portuguesa, por ser de um sistema de representação diferente das Línguas de Sinais, não tem como ser a sua segunda língua. Para eles, as outras línguas visuais-espaciais, como por exemplo, Língua Americana de Sinais, deve ser a sua segunda língua, além disso, propõem que os surdos devem aprender a Língua Portuguesa na modalidade escrita depois de aprenderem a escrita da Língua de Sinais Brasileira. Capovilla (2002, 256), corrobora com essa ideia ao explicar sobre a descontinuidade na aprendizagem de uma segunda língua por crianças surdas. (Silva, 2008, p.89).
Segundo Quadros (2006) há dois movimentos de resistência surda quanto ao uso da Língua Portuguesa, enquanto uma outra língua, e não como uma segunda língua. O primeiro é o movimento oposicional que se localiza dentro de uma perspectiva progressista de educação bilíngue. Esse movimento enfatiza a noção de diferença cultural, porém, de forma estática, ignorando o papel das interações sociais no desenvolvimento político, histórico e cultural dos próprios surdos. Seriam surdos só os surdos com "S" maiúsculo, os surdos militantes, isto é, que se opõem frontalmente aos ouvintes. Por se colocarem dessa forma, ao mesmo  tempo que denunciam o apagamento da Língua de Sinais Brasileira pela imposição do uso da Língua Portuguesa como língua acadêmica também reduzem as possibilidades de  interação entre surdos e ouvintes. O outro movimento defino-o de pós-colonial, mesmo se apresentando de forma embrionária é um movimento de resistência surda que se desloca das relações oposicionais - surdos/ouvintes Língua de Sinais/Língua Portuguesa - e entra em espaços de negociação sem uma preocupação de vigiar as fronteiras. A língua, independente de sua modalidade, é vista como um instrumento de poder que pode desconstruir as próprias representações hegemônicas sobre o ser surdo. Porém, os dois movimentos convergem em um ponto: a Língua de Sinais deve ser a língua acadêmica dos surdos, por uma questão  muito simples, a Língua de Sinais á a língua que lhes permite ser o que sempre foram e serão: surdos. (Silva, 2008, p. 90).  

Um texto de Veloso, 2008.

Afabetização do indivíduo surdo: primeiro em Libras ou em português? 

[...] no que diz respeito à abordagem socioenteracionista, a linguagem é percebida como interação e intervenção do indivíduo em seu meio social. Verificamos, portanto, que a língua materna do surdo é a Libras, uma vez que é esta a língua que ele adquire espontaneamente e que ele pode dominar plenamente, pois utiliza o meio espaço-visual, que é o normalmente desenvolvido pelo indivíduo surdo, e a Língua Portuguesa é sua segunda Língua, já que ela não é natural para este indivíduo e sua propriação é comprometida. Rocha-Coutinho (1986) esclarece, a esse respeito, quando escreve, que: 
O deficiente auditivo apesar de contar com expressões faciais e movimentos corporais, não possui uma das fontes de informação mais rica da língua oral: monitorar sua própria fala e elaborar sutilizas através de entonação, volume de voz, hesitação etc. (p. 79-80).
Com base nesse pressuposto bilíngue, defendemos que ocorra a alfabetização e o letramento em Libras anteriormente à alfabetização e ao letramento em Língua Portuguesa, seja qual for sua modalidade, oral ou escrita. 
Faria diz a esse respeito que: "No caso do surdo, que para ser 'igual' é preciso, antes, ser diferente" (Faria, 2001, p. 111).
Primeiro, é preciso respeitar a individualidade, para que o sujeito tenha uma aprendizagem igualmente qualitativa. Como nos mostra o relato de uma estudante de nove anos de idade de 4.ª série: "Eu gosto de estudar, gosto de escrever recados para os meus amigos, gosto de ler histórias, piadas [...]
A Libras é muito importante porque ela que me ajuda a entender o que estou lendo".
[...] É através da Libras, ou seja, do meio espaço-visual,  que o surdo interage e interpreta o mundo a sua volta. Tal como lemos em Paulo Freire, inferimos que "a leitura do  mundo precede a leitura da palavra" (1981, p. 11).
Acrescentamos: a partir desta leitura de mundo, esse indivíduo a leitura da palavra, ou a leitura do gesto. Paulo Freire, em seus estudos (1921-1997), mostra a importância de alfabetizar o indivíduo, trabalhando sua realidade, indo além da memorização do sistema alfabético e do processo mecânico de interpretar códigos.
Para que haja o letramento do surdo na sua 2.ª língua, é preciso que o indivíduo perceba a diferença entre a significação e o tema, que ele saiba que as palavras têm uma significação, indissociável de seu contexto. Em outras palavras, é necessário despertar no indivíduo sua capacidade de abstração, distanciando o objeto de sua materialidade, elaborando novos conceitos independentes da situação concreta.
Convém ressaltar o conceito de letramento indicado por Magda Soares (1998, p. 47): "estado ou condição de quem não sabe apenas ler e escrever, mas cultiva e exerce as práticas sociais que usam a leitura e a escrita". E somente exercendo a linguagem, podem-se criar novos conceitos, para o surdo e para todos os outros indivíduos, dependendo da qualidade da relação que ele mantenha com sua língua materna.
Por outro lado, podemos encontrar nos estudos de Walter Benjamim (1987) uma relação entre gestos e linguagem. O filósofo alemão, assim como Vygotsky (1984), assinalou que o gosto precede a palavra; é a primeira linguagem do ser humano. Segundo a teoria mimética de Benjamim (apud SOUZA, 1987) a palavra, ou seu som propriamente dito, no início, seria um acompanhamento do gesto. Como o passar do tempo, a palavra assumirá o papel predominante na comunicação do homem, aumentando seu vocabulário de acordo com suas vivências.
O surdo também teria como primeiro meio de comunicação o gesto, mas não poderia se utilizar do som propriedade. Sua comunicação, no entanto, não poderia ser aprimorada? De acordo com a teoria sócio-interacionista, responderíamos sim. Se o indivíduo aprofunda suas vivências, o mesmo ocorre com sua linguagem: as duas esferas seguem juntas,  constituindo o pensamento do homem, mesmo que ela não seja uma linguagem legitimada.
Os surdos, mesmo não tendo acesso a Libras na infância, se comunicam por uma linguagem rudimentar própria e gestual que é chamada por Tervoort (1961) de "simbolismo esotérico". Trata-se de um sistema linguístico restrito, que serve para comunicação na ausência de uma língua comum com seus familiares. Como esse indivíduo não adquiriu plenamente nem o português e, infelizmente nem a Libras, utiliza essa língua para se comunicar. No entanto, essa língua não é compartilhada em seu contexto social e restringe o indivíduo à interação com um sujeito determinado, na maior parte das vezes, com membros de sua família. Com sua língua  limitada, sua vivência também diminui. Estudos de autores como Fernandes (1990) mostram que surdos que tem convivência tardia com Libras apresentam problemas cognitivos, emocionais e sociais. O Seguinte trecho de Paulo Freire mostra a importância da linguagem para a vivência do indivíduo:
Na medida, porém, em que me fui tornando do meu mundo, em que melhor o percebia e o entendia na "leitura" que dele  ia fazendo, os meus temores iam diminuindo...
Fui alfabetizado no chão do quintal da minha casa, à sombra da mangueira, com palavras do meu mundo e não mundo maior dos meus pais. (1981, p. 15).
A Libras diminui os temores do surdo; é o que constitui como cidadão.
Muitos autores cognitivistas (HAWKINS apud SALLES, 2004; VYGOTSKY, 1984) defendem uma faixa etária correta para tornar um indivíduo íntimo de seu mundo, o período da primeira infância, que vai até os cincos anos de idade, aproximadamente, e é conhecido como período crítico.
Nesse período, a criança faz a aquisição da linguagem; ela utiliza várias hipóteses, experimentando diversas possibilidades até estruturar seu pensamento e sua gramática, ou seja, suas regras de comunicação.
É nesse período que o indivíduo surdo deve ter contato com a Libras, para, assim como o ouvinte, conhecer seus parâmetros e compreender sua gramática. Com uma estruturação sólida e um domínio pleno de sua língua materna, ele poderá aprender novas línguas e seus símbolos. Um dos despropósitos cometidos contra os surdos é dizer que eles só compreendem o concreto. Isto não é real, o surdo utiliza gírias, simbolismos e diferentes significados para uma mesma palavra. Ocorre que sua vivência, sua cultura são diferentes. Por isso, suas abstrações também o são. Assim como um estrangeiro, ele não entende as expressões que não fazem parte de seu contexto social. Esse fato ressalta a importância do letramento; demonstra que não adianta conhecer a palavra. É preciso entendê-la no seu contexto. Neste sentido, Magda Soares (1998, p. 89) ressalta que: "Ter se apropriado da escrita é diferente de ter aprendido a ler e escrever: aprender a ler e escrever significa adquirir uma tecnologia, a de codificar em língua escrita 'própria', ou seja, é assumi-la com sua 'propriedade'."
É preciso alfabetizar  e letrar o surdo em Libras, para que ele adquira habilidade na escrita do Português e vá além de sua mera decodificação. A Libras simboliza a língua escrita, tornando-a objeto de interação espontânea e entendimento, que são os requisitos para capacitar uma pessoa como letrada. 
A aquisição de uma segunda língua, não só para o surdo, é extremamente complexa, pois envolve diferentes aspectos, inclusive o emocional. É necessário que o aluno esteja predisposto a aprender e, para isso, não pode considerar sua língua materna como inferior. Tornar-se letrado em outra língua vai além de gravar suas regras e principais vocábulos; é preciso compartilhar e conhecer a cultura e o espaço onde essa língua circula, para se apropriar dela plenamente. [...]

Referências bibliográficas:

GOLDFELD, Marcia. A Criança Surda, São Paulo, Ed., Plexus, 1997.
QUADROS, Roncice M. & VASCONCELLHOS, Maria L. B. Questões Teóricas das Pesquisas em Línguas de Sinais. Florianópolis, Ed., Arara Azul, 2006.
RIBEIRO, Marília D. C. & SANTO, Wladia F. E. Fundamentos Teóricos e Metodológicos da Inclusão: A interferência da Língua de Sinais na produção de testos escrito; A alfabetização do indivíduo surdo: primeiro em Libras ou em português? Curitiba, Ed., IESDE Brasil, 2008.
SILVA, Vilmar.  Org., QUADROS, Ronice M. Estudos Surdos III: As representações em ser surdo no contexto da educação bilíngue, Petrópolis, Ed., Arara Azul, 2008.