Neste espaço pode-se escrever as experiências boas e ruins, é uma forma de passar para os outros nossas dificuldades ao trabalharmos em um país que as Leis e Decretos ficam apenas no papel. Quando criei este blog queria tão somente desabafar a frustração de ver tantos alunos aqui em Goiânia sem intérprete de libras, provocado pelo descaso do governo, mas depois percebi que poderia fazer mais, então comecei a postar textos de pessoas que nem conheço e gostei de ter lido. Achei que compartilhando esse material estaria ajundando outras pessoas em suas pesquisas, o que eu não pensei é que teria tanto acesso em tão pouco tempo, visto que meu blog foi criado em abril de 2011. Gostaria de agradecer a todos que têm acessado este blog, e espero ter ajudado e contribuido com alguma coisa. Se você tiver um texto que possa me enviar eu o postarei, assim estará me ajudando também.(regisneia@gmail.com)

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sexta-feira, 15 de julho de 2011

Temática: aspectos da sexualidade/deficiência mental

Eu e Maria Thereza
Esta semana estive visitando a Associação Down de Goiás (ASDOWN), uma entidade sem fins lucrativos de abrangência estadual, de caráter social, educativo, científico e cultural. Lá eles trabalham com o intuito de informar os familiares sobre a doença e sociabilizar a pessoa com Síndrome de Down, um trabalho focado no combate ao preconceito e integração desses indivíduos na Sociedade. Fundada em 1993 por pais que tinham uma preocupação em atender seus filhos; a instituição  sobrevive  basicamente de doações e trabalhos voluntários. Uma colega perguntou para a mãe que é coordenadora e atual presidente da instituição como ela trabalha a sexualidade com sua filha com quinze anos que tem Down? Então ela respondeu que conversa normalmente com a filha como faria com qualquer outra adolescente, que não vê porquê privar sua filha das descobertas que o corpo nesse exato momento sente, que aconselha o que pode e o que não pode ser feito enquanto está namorando, e que quando chegar a hora apropriada irá orientá-la sobre prevenção de gravidez e  doenças sexualmente transmissíveis sem nenhum tabu. Ela disse que uma vez em um congresso uma pessoa perguntou para o palestrante porque pessoas deficientes gostam tanto de sexo, e ele respondeu você não gosta? Vamos dar uma olhada no que diz respeito sobre Síndrome de Down:  Uma das mais comuns deficiências intelectuais, resultado de uma cópia extra do cromossomo 21, assim, onde deveria haver dois, há três cromossomos. Sendo chamado de trissomia 21 e provoca, um excesso de 329 genes por célula. A Síndrome de Down é considerada um acidente genético. Embora o cromossomo 21 seja o menor cromossomo humano, sua trissomia altera gravemente o fenótipo de uma pessoa. As pessoas com síndrome de Down apresentam baixo peso e tamanho no nascimento, hipotonia (musculatura mais flácida que o normal), pescoço curto, prega na pálpebra superior no canto interno dos olhos (o que os deixa parecidos com pessoas orientais), macroglossia (língua grande e flácida), feições características e estatura baixa, além de problemas cardíacos, retardo mental e suscetibilidade a infecções respiratórias, leucemia e doença de Alzheimer, em alguns casos, na mesma porcentagem para pessoas consideradas normais, só que 30 anos mais cedo. A incidência da síndrome de Down é de um caso para cada 700 nascimentos. (Revista Ciranda da Inclusão, 2010). 
Antigamente havia um mito que as pessoas com síndrome de Down morriam jovens, isso porque ainda não tinham descoberto que eles têm problemas cardíacos, que se for tratado corretamente podem ter a mesma expectativa de vida como qualquer brasileiro. É preciso, portanto fazer um acompanhamento com nutricionista para terem uma alimentação saudável, preocupando inclusive com o peso, pois segundo informações, eles podem se tornar obesos, o que acarretaria novas doenças, lembrando que obesidade é uma preocupação  de Saúde Pública  que pode atingir diversas pessoas por diferentes causas como: genética, ambiente e comportamento. Voltando ao assunto, alguns demonstram uma grande ou menor dificuldade ao falar, precisando de orientação fonoaudiológica. No mais são pessoas alegres e carinhosas, o que não se pode confundir com mudança de humor uma característica de qualquer ser humano. 
Hoje resolvi postar aqui um resumo do texto da Doutora e Professora Fátima Elisabeth Denari, cujo original é: Adolescência & deficiência mental: desvelando aspectos de afetividade e sexualidade.
Como acontece a quaisquer garotos e garotas, as mudanças anatomofisiológicas, a busca da identidade pessoal e a luta  pela independência, as estratégias de autodefesa, a rebelião, o inconformismo contra a autoridade, a permissividade dos pais e a funcionalidade psicobiológica e sexual são algumas das tarefas a serem superadas/cumpridas nestas fase de transição. As condições de incompreensão, imprevisibilidade, rebeldia e dificuldade de controle "são essenciais à garantia do processo de independentização" (DOLTO, 1990: 76).
A sexualidade, ainda que não seja de tão fácil definição, é uma dimensão da personalidade presente na conduta humana, é uma energia que integra o comportamento da pessoa em sua totalidade. É uma  função biológica e também a mais profunda fonte de encontro, intimidade e comunicação de sentimentos e afetos, durante o transcorrer de suas vidas. E, mesmo que não tenhamos total clareza dos múltiplos aspectos psicológicos, biológicos, sociais e culturais concernentes à sexualidade, os tabus, conflitos, valores e atitudes relacionados à sua manifestação e ao seu exercício nos acompanham desde o início de nossas vidas. 
Na expressão de Merleau-Ponty (1994: 219) a sexualidade se faz presente na história das pessoas uma vez que "na sexualidade do homem projeta-se sua maneira de ser a respeito do mundo, quer dizer, a respeito do tempo e a respeito dos outros homens". O ser humano é um ser sexuado e, para além da finalidade intrínseca e específica de transmitir a vida e perpetuar a espécie, neste contexto, a sexualidade não se esgota nos aspectos biológicos ou fisiológicos. Ao contrário, atrela-se à ocorrência e manifestação amorosa. O amor é um movimento da sensibilidade, mas para o ser humano a sensibilidade é inseparável do especificamente humano: a racionalidade e a livre vontade.
Assim, homens e mulheres, por serem conscientes inteligentes e livres, tornam-se donos/as e responsáveis por seus atos e seu próprio destino. Desta forma é muito importante forma, desde a infância, um caráter moral que permita ter comportamentos sexuais consistentes com uma moral que tem por premissa o respeito ao ser humano, independente da orientação filosófica ou religiosa adotada na vida adulta. (BECKER, 1984; WÜSTHOF, 1994). O corpo, além de revelar uma personalidade, revela, concomitantemente, uma cultura: ambas se entrelaçam no estabelecimento de uma sociedade. Segundo Moreira (1995: 30) a corporeidade possui significado através da cultura; daí a constatação de que "corpo-educação, por meio da aprendizagem, significa aprendizagem da cultura - dando ênfase aos sentidos dos acontecimentos da cultura. Corpo que se educa é corpo humano que aprende a fazer história fazendo cultura". 
A sexualidade, pois, estando presente na sociedade faz com que homens e mulheres, ao buscarem novas perspectivas sexuais, encontrem, também, novas preocupações. Dentre estas, mais recentemente, vem se salientando a preocupação: com sexo seguro, frente à expansão de doenças infecto-contagiosas (Aids); com alto índice de gravidez na adolescência; com as formas de opção sexual de um crescente número de pessoas; e, ainda, com a manifestação da sexualidade na pessoa deficiente. 
Pessoas deficientes (relembrando, o nosso foco recai sobre adolescentes tidos como deficientes mentais) manifestam emoções e impulsos sexuais próprios desta etapa do desenvolvimento humano, à semelhança de seus coetâneos típicos; tais como estes prescindem de informações seguras, talvez mais ricas em detalhamento, de forma a se  respeitar o direito à livre expressão de sua sexualidade. No caso da condição de deficiência mental é importante destacar que estas pessoas podem tornar-se sugestionáveis e vulneráveis por sua condição de fragilidade e por não responder com suficiente capacidade às críticas e opiniões das pessoas com as quais convivem. Estas são, entre outras, as principais causas que podem levar as pessoas tidas como deficientes mentais a constituir um grupo mais exposto a abusos de toda forma. 
O estereótipo da pessoa deficiente tida como assexuada ou agressiva sexualmente resulta da visão popular que atribui a ela características de incompletude; que lhe atribui, ainda, poderes demoníacos ou que prefere  mantê-la numa eterna infância: o anjo ou a fera. Nega-se, então, não somente a sexualidade, mas a sua expressão, passível de controle, quer por repressão comportamental, ou canalização de atividades concorrentes, quer por via medicamentosa. O caminho percorrido pela pessoa com deficiência mental, na busca e conquista de seu equilíbrio afetivo, é similar a de qualquer pessoa; no entanto, evidenciam-se conotações singulares, específicos, limitações pouco conhecidas e muito mitificadas e quase todas a definir. E a sexualidade, devido as suas amplas consequências (positivas e negativas), é mais uma das áreas em que têm de fincar posições, fazer escolhas. Desta forma, é imperativo garantir-lhes informações que sejam adequadas à sua idade e ao seu nível cognitivo. Saber como expressar preferências e como  fazer escolhas é um caminho de aprendizagem de estar no mundo nos leva à conquista de habilidades importantes.
Não há como negar os grandes abusos cometidos contra estas pessoas, o grande risco de não valorizá-las em sua dignidade pessoal e de convertê-las em objeto, simplesmente... Neste sentido, há que considerar um ponto fundamental: o significado da sexualidade do deficiente mental está, muitas vezes, sumariamente marcado pela falta de possibilidade de expressão verbal, o que dificulta a expressão de seus sentimentos. Consequentemente, seu corpo tem um papel importante na comunicação com outras pessoas.
A dimensão afetiva reveste-se de grande importância para a pessoa com deficiência mental: reprimi-la, puni-la ou ignorá-la acarretará transtornos mais agudos e severos à sua já difícil situação. Muitos dos deficientes mentais querem um amigo/a, um companheiro/a que compartilhe de seus interesses; é essencialmente vital que haja alguém que esteja interessado em se comprometer, que respeite sua identidade, que lhes dêem voz e que sejam capazes, verdadeiramente, de ouvir suas confidências. Suas aspirações sociais e sexuais não são diferentes dos demais garotos e garotas; problemas ocorrem quando lhes são negadas oportunidades de explorar alguma relação dificultando o alcance de suas aspirações! (DENARI, 2006: 193,194,195,197,198,199,200,201,202,203,204).
  
Referências:
DENARI, Fátima Elisabeth. Inclusão Compartilhando Saberes: Adolescência & deficiência mental: desvelando aspectos de afetividade e sexualidade. Petrópolis, RJ: Vozes, 2006.  
Revista Ciranda da Inclusão,  Ciranda Cultural,2010. 
Atenção! Importado e modificado apenas para leitura.           

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